sábado, maio 05, 2012

Lágrima perdida


À minha volta oiço o silêncio,
E nesse silêncio procuro-te.


Essa ausência palpável no ar que me cerca.
Essa lágrima que desce sozinha na face.

Esse pensamento egoísta que me consome,
esse desejo profundo que me enforca.


Choro. Grito. Chamo-te.

E tu afastaste mais.
Abraço a solidão e oiço a melodia sem som,

onde atraco a minha consciência

na realidade que tento fugir.


E à minha volta continuo no silêncio,
E nesse silêncio volto a procurar-te.

Sem escutar nenhuma resposta,
apercebo-me da triste verdade  em que vivo,

onde nem oiço o eco da minha própria voz .


Nisto o pano cai,
revelando o que está escondido.

Essa verdade que ninguém quer ver.
Nem ouvir, nem saber.

E continuo onde comecei,
sem nunca, tampouco, ter começado.




terça-feira, dezembro 27, 2011

No silêncio sem tempo


O cheiro da inexistência aproxima-se.
Esse vento lento e sedutor,
que me leva para aquilo que quero encontrar.
Mas sem saber, ou sem querer ver,
sinto o beijo do silêncio.
E enquanto a penumbra abraça-me
nessa ausência de tempo consigo rever-me.
O mundo, a vida, a morte.
No seio de sangue perco-me.
Procuro fingir que tenho quando se parte,
pois na noite escondo o que vejo,
no dia exponho o que não tenho.
Arde e consome-me
e no nada desapareço,
sem memória me vêem,
sem corpo me encontram.
No silêncio da morte apenas o vazio.
Uma alma oca.
Uma alma perdida
e desvanecida no tempo.
.
Há momentos assim que tenho de escrever.
Foto encontrada num web site.

segunda-feira, abril 11, 2011

Migalhas de mim

http://www.youtube.com/watch?v=6Ujng5sB3LA Porque a melodia embala. A letra enaltece. Os anjos dançam E a nossa alma agradece. Vale a pena ouvir esta música no youtube: Dark Sanctuary - Les Affres de la crematión

sexta-feira, abril 08, 2011


Fechei a porta de carvalho maciço e dirigi-me para o carro, enquanto tirava as chaves do bolso lateral das calças. Fechei-me dentro do carro, certificando-me que as portas estavam bem trancadas e coloquei a chave na ignição. Sabia que não tinha muito mais tempo, mas não consegui iniciar a marcha. O meu coração doía-me em demasia para sentir que a vida fazia sentido.


Controlei a maré de lágrimas que ameaçava cair e encostei a cabeça ao suporte superior do banco com os olhos fechados. Sem aguentar mais, liguei o motor de vez e sai do parque de estacionamento. O caminho de carro para a tua casa foi na sua maioria feito em silêncio profundo, alternando por vezes com as tão habituais vozes não naturais que nos últimos dias me perseguiam.



Fui sincero quando disse que te amava. Fui honesto quando me entreguei a ti. Amo-te se é isso que queres saber. Amo-te como nunca amei ninguém. Sacrificava a minha vida de bom grado pela tua, sem hesitação, se isso te permitisse viver para alcançares os sonhos que tanto ambicionavas.



Parei o carro frente ao teu portão de grades verdes, ornamentado com ramos e folhas de metal que se contorciam sobre si e desliguei o carro. Ouvi novamente as vozes. A porra das vozes que me atormentavam dia após dia, semana após semana. No inicio eram difusas e espaçadas no tempo, assustando-me completamente quando surgiram. Fizeram-me pensar que estaria louco, endoidecido na totalidade do meu ser. Mas não, em grandes momentos de ansiedade o cérebro pregava-nos partidos, tinham-me explicado, no entanto, sabia que mesmo nos períodos mais calmos, as vozes mantinham-se na minha cabeça. Aquele murmúrio incessante, que só terminava quando queria, como se fosse detentora de vontade própria.


Olhei para o teu portão e foi o suficiente para me deixar cair no abismo de sentimentos que me estrangulava a alma. Chorei. Chorei sem parar, até ficar com dificuldade em respirar, obrigando-me a engolir em seco para não inspirar qualquer tipo de conteúdo para os pulmões. Senti-me gradualmente mais vazio por dentro, o abismo onde mergulhei começara a inundar-me, cada vez mais profundamente. As vozes voltaram em força, personificando o ar à minha volta, numa intensidade crescente, obrigando-me a colocar as mãos nos ouvidos numa tentativa frustrada de abafar o som.



Porque me abandonaste? Porque me obrigas a ter de arranjar todos os dias motivação para viver quando nada mais me interessa? Tenho tanta pena que tenhas desperdiçado o tempo que tinhas com o teu trabalho, colocando-me em segundo plano se tivesses num período de maior stresse. Não consigo olhar para trás sem pensar que perdemos tanto e vivemos tão pouco.



Sai do carro sem o desligar, tampouco me importei em fechar a porta. Queria tanto ver-te uma última vez. Abraçar-te como no último dia, sentir a segurança que esse aperto tão só nosso nos transmitia. Obriguei-me a consciencializar-me que isso tinha terminado. Esses dias não se iriam voltar a repetir. Desapareceste da minha vida sem em avisares. Dói-me tanto. Sinto-me tão enganado; enganado por ti, pelo que experimentámos, pelo que vivemos. Sentei-me em frente ao teu portão e continuei a chorar.


Estava sozinho na rua e a noite já se instalara há muito quando as vozes reapareceram de uma forma ainda mais presente, mais assustadora. Uma nuvem esbranquiçada surgira à minha frente, formando um círculo em meu redor . Lentamente a nuvem à minha volta começou a transformar-se em vários corpos com uma forma humanóide, como se fossem pequenos duendes dos contos infantis, que ficaram estáticos, observando-me, enquanto os seus lábios desenhavam pequenos trejeitos numa fala incompreensível. Os murmúrios intensificaram-se e senti um formigueiro no pé que depressa percorreu o meu corpo, tornando-o cada vez mais leve. Como se a física não tivesse mão neste assunto, o meu corpo elevou-se no ar, ao som do coro de vozes que me rodeavam, deixando que a brisa fresca da noite primaveril me refrescasse.



O cansaço e o desespero apoderaram-se de mim e nada me dá mais vontade em continuar a viver. Quero ir para junto de ti, quero voltar e viver o que não vivemos. Quero voltar a ver-te a rir, a roubar-me as torradas do pequeno-almoço, a limpares-te à toalha quando terminas o duche. Quero voltar à minha – nossa – normalidade.



O cheiro da terra revolvida, misturada com o cantar matinal dos pardais encheram-me a cabeça quando acordei. Senti dor em cada parte do meu corpo, pelo que me demorei mais a levantar-me. Olhei para o espaço à minha volta e não pude acreditar no que via. O cemitério estava vazio àquela hora do dia, como seria de esperar, pelo que tentei recordar como havia chegado ali, mas a minha memória parecia entorpecida, como se quisesse acompanhar o estado do meu corpo. Reparei na lápide à minha frente e com dificuldade tentei ler o que lá se encontrava escrito, não querendo acreditar quando vi o meu nome lá gravado. Finalmente compreendi o que as vozes me queriam transmitir.



Afinal a culpa é irrevogavelmente minha. Estraguei tudo o que tínhamos, estraguei as nossas vidas. Destruí o que podia ter sido construído.

Espero que me perdoes.

Um dia.

quinta-feira, setembro 03, 2009

Mar e magia



Olhou para o mar e para as crianças que lá se banhavam, gritando e atirando a água para o ar de modo a aproveitarem as gotas que caiam para se refrescarem, rindo excitadamente.

Sentou-se à beira-mar. Adorava ter as mãos a brincar na areia, enterrando nela os dedos e apertando aquele aglomerado de pedras e cristais minúsculos, sentindo-os entre os dedos. Por outro lado amava sentir a água que as pequenas ondas lhe traziam no final da ondulação, molhando-lhe as pernas e os calções, refrescando-o num ciclo contínuo de onda atrás de onda.
Reparou pelo canto do olho que alguém se sentara a seu lado, mas não lhe dera importância. Sentia-se demasiado perfeito para se preocupar com quem estava à sua volta. O mar. A areia. O Sol. A brisa vinda do mar. Os quatro elementos ligados e a trabalharem em sintonia.

Enquanto pensava no puro sentimento que estava a viver naquele momento ouviu uma voz rouca, mas quente, perto de si, sussurrando-lhe junto do ouvido. Olhou na direcção da voz e reparou que estava sozinho. Continuou a procurar a sua origem, girando a cabeça em várias direcções, mas sem sucesso. As crianças continuavam no seu intenso frenesim. Não podiam ter sido elas, pensou, pois estavam demasiado longe. Lembrou-se da presença que sentira a seu lado e que não havia dado importância. Tentou procurá-la, mas nada, nem ninguém, se encontrava perto de si.

Encolheu os ombros. Provavelmente imaginara a voz.
Levantou-se e caminhou em direcção do mar, sentindo o nível da água a aumentar e a envolver-lhe o corpo, à medida que entrava cada vez mais fundo naquele manto azul. Mergulhou, deixando-se ficar debaixo da água. Aquele silêncio proporcionava sempre um encontro consigo mesmo, um momento de introspecção no qual recordava os doces anos da sua infância, quando vivia despreocupado e sem se deixar levar pelas complicações do dia-a-dia.
Tinha dois anos quando pisara a areia pela primeira vez na companhia dos seus avós. Parecia-lhe magia a forma como os seus pés desapareciam no chão por sua própria vontade.

- Tudo é magia – dissera-lhe uma vez o seu avô, depois de terem ido juntos ao cinema ver a estreia do filme “O Rei Leão” – reparaste como o Simba se sentiu mais feliz e mais forte quando, à noite, olhou para as estrelas e sentiu a presença do seu pai, perto de si, como se estivesse vivo? Ele acreditou e viu. A partir de magia, fez a sua própria magia e isso fê-lo sentir-se mais corajoso. Se guardares um pedaço de borracha – daquelas que utilizas na escola – e acreditares que ela te vai dar força, ou alegria, ou sorte no amor, então, estás a fazer magia. Lembra-te sempre que a magia existe, quando acreditas e queres que ela exista.

Tinha saudades do seu avô, das suas sábias palavras, das histórias de aventura que viveu nos seus anos de adolescência rebelde, dos seus ensinamentos, dos seus abraços…

Os seus pulmões já exigiam oxigénio quando colocou a cabeça sobre a superfície da água e inspirou profundamente. Inclinou-se para trás e deixou-se flutuar, sentindo o quente do sol, em contraste com o frio da água. Calor e frio, a eterna dualidade dos opostos. A sua sintonia. O seu yin e yang.

Perdera a fé na magia a partir dos onze anos, quando o seu avô falecera à sua frente, atropelado por um camião de carga. Ainda tinha presente na sua cabeça o dia em que o seu avô morrera. As imagens passavam-lhe diante dos olhos, como se ainda fosse hoje: o avô a pedir-lhe para esperar à porta do prédio, enquanto ia ao café comprar-lhe um doce – um chupa-chupa encarnado e em forma de coração, com sabor a cereja, seu preferido, que o avô sempre lhe oferecia – a visão do camião a rodar qual pião, após o condutor, um homem velho, de óculos com hastes de massa castanha e com grossas lentes, ter carregado a fundo no pedal do travão; o som dos pneus a derraparem no solo; o seu avô com os olhos aberto de surpresa, em estado de choque, vendo o automóvel a deslizar na sua direcção.

Voltou a mergulhar, procurando o silêncio de morte que tão bem conhecia, onde as lágrimas se difundiam no extenso mar. Desejou permanecer eternamente naquela ausência de significado, de importância, onde podia ser quem era, ou o que era. O nada constante ou o tudo vazio.

- A ausência de magia na tua vida leva-te a um estado de vazio, de nada, pior que a própria morte.

Abriu os olhos, observando por baixo da superfície do mar os raios solares que banhavam aquelas águas. De novo aquela voz, quente e rouca, que tão bem conhecia.
Voltou à superfície. As crianças já lá não estavam, possivelmente tinham ido para terra, deitando-se nas toalhas enquanto as mães preocupadas tentavam colocar chapéus nas suas cabeças.

Sentiu uma dor aguda no peito. Algo dilacerava-lhe o corpo. Sentia dificuldade em respirar, que agravava com a entrada de água salgada devido à agitação que os seus braços provocavam no mar.
Deixou de sentir, de ver, de ouvir. Começou gradualmente a perder a consciência, sentindo-se novamente leve… e finalmente liberto.
A última coisa que ouviu foram uns gritos angustiados de duas, três ou mais mulheres, não sabia, ao longe.

- A magia está dentro de ti e à tua volta – dissera-lhe o avô, quando se dirigiam ao McDonald’s. – Simba encontrou-a nas estrelas, Timon e Pumba no lema de vida Hakuna-matata. Tu um dia irás encontrá-la, basta olhares bem para o mundo à tua volta e, claro, para dentro de ti.

sexta-feira, abril 03, 2009


Another head hangs lowly,
Child is slowly taken.
And the violence caused such silence,
Who are we mistaken?

But you see, it's not me, it's not my family.
In your head, in your head they are fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bombs and their guns.
In your head, in your head, they are crying...


Corri para ti quando vi que estavas a sangrar.
Olhei-te nos olhos, deixando-me envolver pela cor de âmbar e mel.
Reparei que choravas. Mas não quis pensar na possibilidade de te perder.
Garrotei a tua perna, na esperança vã de estancar a hemorragia.


Another mother's breakin',
Heart is taking over.
When the vi'lence causes silence,
We must be mistaken.

It's the same old theme since nineteen-sixteen.
In your head, in your head they're still fighting,
With their tanks and their bombs,
And their bombs and their guns.
In your head, in your head, they are dying...



Porquê? Porquê tanta desgraça, tanto ódio, tanta raiva…?
Não merecias morrer. Porque tiveste que pagar pelos outros?
Odeio-os!
Quero ter-te aqui de novo, ao pé de mim, para poder beijar-te. Apenas uma vez mais …

In your head, in your head,
Zombie, zombie, zombie,
Hey, hey, hey. What's in your head,
In your head,
Zombie, zombie, zombie?
Hey, hey, hey, hey, oh, oh, oh,
Oh, oh, oh, oh, hey, oh, ya, ya-a...


Música e letra de Cranberries – Zombie
Um clássico!

quarta-feira, outubro 22, 2008

Lembranças num livro velho



- Mudaste tanto... tens noção disso?
- Naturalmente que sim. Tu fizeste-me crescer.
- Não é altura de te despedires do que de mau existe?
- Parece que sim.
- Então de que esperas? Procura o teu passado num livro e rasga o que lá encontrares!


Olhei para a tua fotografia, fizeste-me sorrir e fechei finalmente o livro...

domingo, outubro 19, 2008

Life is a song



Tantas vezes chorei
Tantas vezes sorri
Tantas vezes desejei ter-te aqui

Tive medo que me largasses a mão
Tive medo de olhar para trás e ver que afinal tudo foi um sonho
Tive medo que num instante pudesses desaparecer

Vivi tanto tempo sem ti
Olho-me agora, revejo o meu passado
Juro que nunca pensei que senti o que vivi
Tudo me fez crescer
Tudo agora me faz sentido

A vida é uma música
O compasso inicia a melodia
O metrónomo orienta o nosso ritmo
E um dia tudo acaba
O compasso suspende-se, o metrónomo encrava
Mas eu mantenho-me feliz, porque estás ao pé de mim
Amo-te!


Obrigado

sexta-feira, outubro 10, 2008

Caixinha de Música


Abriu a caixinha-de-música e deixou-se envolver pela melodia Bethoviana que preencheu a sala. Iniciou uma dança sem nexo, sem lógica, apenas ao som de cada nota tocada, naquele agudo som de metal.

Olhou-se no espelho. O dia de ontem só mostrou como já estava velho. Mais um ano, mais um ano, mais um ano. Ridículo pensar assim. A cada ano que passa, o conhecimento aumenta em flecha, diziam-lhe. Mas não era só isso. Ele sabia que não. Sentia-se velho, por mais novo que lhe dissessem que era.

Continuou a dançar, deixando-se levar pela Für Elise. Sentou-se na beira da cama, apoiando as mãos na colcha amarela e azul, olhando para o tecto. Mais que apenas olhar, ele pensava no presente. Hoje era um homem diferente. Mais crescido que ontem, sem dúvida, mas mais novo que o dia de amanhã.

Passou bastante tempo… de um quinto de século aproxima-se um quarto de século...

E dizem que ele continua novo…

Definitivamente não percebem!

Sensações

Preciso de uma flôr. Preciso de sentir-me frágil como ela, sem ter de preocupar com o mundo à minha volta, apenas querendo sentir a brisa que sopra sobre mim.

Desejo ser a água. Quero correr planícies, banhar as margens de um lago, rebolar-me como uma onda pela areia de uma praia, sem limites, sem entraves, moldando-me a todos os diferentes terrenos em que toco.

Estou obcecado pelo que não tenho. Vou voltar a direccionar a minha vontade para o que realmente interessa: “Queres jantar comigo, hoje?”.

E assim o disse...

quinta-feira, agosto 28, 2008


Um beijo.
Não podia ter pedido melhor. Não tens noção do quanto significam os teus beijos. Tão angelicais, tão puros, tão voluptuosos.
Continuas a beijar-me. Por favor, não pares. Se me queres completamente entregue, então mantém os teus lábios encostados aos meus.

Meu nirvana, minha onda espiritual, meu Zen. Se isto é o paraíso, não me largues e beija-me. Possuí-me se é este o crescente desejo que ambos sentimos.
Abraça-me. Abraça-me e não me largues. A segurança que me transmites é inigualável. Tudo em ti transpira sensualidade e volúpia.

Beijas-me o pescoço. Levas-me ao êxtase. Garanto-te que nunca senti nada assim. Prometeste que me levarias às nuvens. Não mentiste.

Minha luz divina, meu demónio do prazer. Não me largues. Começas a despir-me, à medida que as tuas mãos passeiam pelo meu peito. Começas a beijá-lo em direcção à fonte do prazer. Deixo-me levar.

Estás a transpirar. Consigo sentir os nossos dois corpos suados, colados um no outro. Gemes de prazer e mesmo assim não me queres largar. Com as tuas pernas entrelaçadas sobre a minha anca, puxas-me para mais junto de ti.

Entramos os dois no êxtase. Volto a beijar-te, desta vez na base do teu pescoço.
Sinto o sabor salgado da tua pele. Mordo-te o pescoço, qual vampiro e voltas a gemer. Empurras a minha cabeça na direcção do teu pescoço. Sei que não queres que pare de te morder. Decides ser tu a comandar o prazer no meu corpo e colocas-te sobre mim.

Atingimos o clímax juntos. Fechamos os dois os olhos, a saborear o momento.
Digo-te que te amo ao ouvido. Sorris e abraças-me com força. Murmuras que também me amas.

Adormecemos abraçados, com os nossos dois corações a baterem ao mesmo ritmo, seguindo um compasso igual.

segunda-feira, março 31, 2008

- Sentes medo?
- Sinto.
- Sentes tristeza?
- Sinto.
- Respira fundo. O que é que vês?
- Vejo uma aura vermelha…
- Continua.
- Sinto qualquer coisa diferente. Um estado de humor alterado. Parece-me revolta!
- Toma mais atenção. Olha com o coração.
- Não é revolta. É raiva, ira, frustração por algo que não devia existir ou que nem sequer existe.
- De quem é essa aura?
- Não sei, é uma imagem muito difusa.
- Volto a repetir: olha com o coração.
- É- me familiar, mas mesmo assim não consigo delinear bem a cara… apenas vejo uma cara desfocada, com dois brilhos que suponho que sejam olhos por cima de uma sombra que parece ser um nariz.
- E agora?
- E agora, o quê?
- Quem te parece que seja?
- Espera… sou eu!
- Consegues compreender agora?
- Acho que sim.
- Então, diz-me, porque achas que sentiste isso?
- Não sei, na altura tudo me parecia tão acertado. Não soube valorizar bem a minha vida, estabelecer prioridades, mudar-me, alterar-me, saborear-me. Deitei tudo por água abaixo. Desiludi muita gente.
- Porque continuas com esse ar derrotado?
- Porque sei que não posso voltar atrás para emendar todos os erros que cometi.
- E agora não podes corrigi-los?
- Como? Às vezes pareces um louco a falar.
- O que é a vida sem uma dose de loucura? Já viste alguém que não tenha mudado a sua vida sem se tornar louca por instantes? Como queres iniciar uma mudança se, loucamente, não largas a segurança de outrora para o desconhecido do futuro?
- Queres que me torne louco para mudar o que fiz?
- Quero que interiorizes que nada é impossível de mudar, nem nunca é tarde para se fazê-lo. Se precisares de um pouco de loucura para alterar o que queres mudar na tua vida, então, utiliza-a com moderação.
- Parece que já tinhas isso tudo muito bem sabido…!
- Parece-me que tu já sabias disto há muito tempo e que não quiseste descobrir a resposta por ti mesmo.

quarta-feira, março 12, 2008




- Tens de ter mais cuidado. Sabes o que acontece quando não fazes o que achas que deves fazer.
- Não me parece que tenha de fazer o que acho se essa ideia me foi imposta por outros!
- É o teu espaço de liberdade.
- É a prisão de mim mesmo!


Olhei para ti e desejei não te ver nesse estado.
As tuas lágrimas difundiam-se nesse teu rosto molhado.
Disseste que ainda me amavas. Morri nesse momento.
Fugi. Fui cobarde, eu sei! Mas era-me insuportável ver-te assim.
Descobriste-me no último momento. Abraçaste-me. Beijaste-me na cara. Prometeste que ficaríamos bem.
Voltei a morrer. Desta vez por dentro.
Não resististe e recomeçaste a chorar.

- Não fizeste o mais correcto.
- Também não me impediste!
- Não há mais ninguém se não tu que te possa impedir. Tu próprio o escolheste.

domingo, outubro 21, 2007

Três passos e um dia morremos

O próximo texto corresponde a um trabalho que fiz para uma cadeira da faculdade. Foi nos proposto escrever uma carta ou um texto sobre a situação de me ter sido diagnosticado que ia morrer dentro de 3 meses e como vivenciaria isso, juntamente com os meus ultimos desejos e receios. Foi esta a minha carta:
1º DIA

Observo pelo vidro do carro as casas a passarem rapidamente, uma atrás da outra, como um ponteiro de um relógio que marca o infinito tic-tac dos segundos. Desdobro mais um lenço, assoo-me e tento enxugar as lágrimas. Ainda tenho muito presente na memória a imagem do médico, sentado à minha frente, naquele consultório abafado, a pedir-me para me sentar na cadeira almofadada que estava do outro lado da secretária branca. Falou-me quase num murmúrio, perguntando-me como me sentia. Recordo-me de não ter gostado da forma como ele formulou esta simples frase, mas respondi-lhe educadamente que me sentia bem, e agradeci-lhe pela preocupação. Começou a comparar a vida a um livro. Segundo ele, a vida era um livro em aberto e a todo e qualquer o momento escrevemos uma nova linha. Falou também do livro ser algo efémero, pois um dia a tinta da caneta iria acabar e quer queiramos, quer não, as páginas ficariam em branco a partir desse instante, impossibilitando-nos de escrever mais. Lembro-me de ter começado a ficar assustado com o rumo da conversa. Sempre me enervou rondar um assunto, sem o abordar directamente. Respirou fundo e, olhando-me nos olhos, disse-me que o resultado dos exames era claro e que por ele, eu nunca teria de passar por uma situação destas, mas dado as estatísticas e o facto de tratar-se da minha vida sentia-se obrigado a confrontar-me com a realidade. Recordo-me da sua expressão facial no momento em que me disse que só tinha três meses de vida. Aquele ar de compaixão, de pena; ar de quem me considera como um caso perdido, que não vale a pena continuar a lutar para melhorar. Fiquei parado, inexpressivo, fixando-o intensamente. Lembro-me vagamente de ele me ter perguntado se tinha percebido o que disse. Abanei a cabeça verticalmente, em sinal de concordância, sem proferir uma única palavra. Idiota, é óbvio que tinha ouvido. Em questão de segundos vejo-o a meu lado, com um braço sobre os meus ombros, respeitando o meu silêncio. Não consegui mover um gesto que fosse, olhando simplesmente para a cadeira vazia à minha frente. Dizia-me que compreendia a minha dor, mas que o diagnóstico era claro. Trágico, e sem ser possível de mudar. Comecei a sentir os olhos a humedecerem e a garganta a doer com o esforço para não chorar. Quando consegui falar, perguntei-lhe se ele tinha a certeza do que me havia dito. O médico respondeu-me que sim, lamentando o facto de as coisas serem como eram. Senti umas lágrimas a escorrerem pela minha cara, mas rapidamente limpei-as com as mãos. Voltei a falar e perguntei-lhe se os meus pais já sabiam. Ele disse-me que não, questionando-me se queria que ele lhes dissesse. Respondi-lhe que sim.
Desisto de olhar pela janela do carro e observo o meu pai a conduzir. Tenta fazer-se de forte, mas sei que ele interiormente está tão mal quanto eu. O mesmo acontece com a minha mãe, que está sentada a seu lado. Vejo que ainda tem os olhos vermelhos e chorosos de há pouco. Ambos procuram distrair-se com a monótona paisagem da estrada à sua frente, remoendo o que ouviram, sofrendo em silêncio. Volto a lembrar-me da conversa de há pouco. Lembro-me de sentir a porta do gabinete atrás de mim a abrir-se e de alguém entrar. Oiço a voz dos meus pais, enquanto cumprimentam o médico com um aperto de mão, e sentam-se a meu lado. Voltei a ouvir a história do livro em aberto, mas a minha atenção já estava longe daquela sala. Remoendo a minha actual situação, um turbilhão de caras de pessoas conhecidas, de lugares que nunca pude visitar, de coisas que gostaria de fazer mas que por circunstâncias da vida não pude pô-las em prática, assaltaram a minha cabeça sem ordem, sem nexo. Recordo-me de ter pensado que já não iria ver mais aquelas pessoas que visualizava mentalmente, que não poderia visitar os tais lugares que tanto queria, nem fazer determinadas coisas que gostaria de ter feito. Ouvi qualquer coisa sobre três meses e volto ao gabinete do médico, vindo do mundo dos meus pensamentos. Lembro-me de ver os meus pais com os olhos brilhantes, completamente imobilizados com o que tinham ouvido. A minha mãe, de braços cruzados, pergunta ao médico se realmente não é possível fazer mais nada. Ele respondeu-lhe que não, tal como me tinha dito.
Chegamos finalmente a casa. Fizemos a viagem desde Lisboa até à Parede em completo silêncio. Penso que noutras alturas teria achado hediondo não ouvirmos, no mínimo, uma estação qualquer de rádio. Hoje não me importei. Aliás, pouco me interessava o mundo exterior de tal modo estava perdido no meu mundo interior. Senti-me distante do que se passava à minha volta, como se tudo fosse um sonho que não teimava em acabar.


3º DIA

É o segundo dia que não fui à escola. Tranquei-me no meu quarto, pois não consigo parar de chorar em cima da minha cama. Não vejo nada à minha volta que me suscite algum tipo de interesse, sem que não me irrite primeiro e me faça ter vontade de estragar, partir, de soltar toda esta raiva que me invade o espírito. Oiço a voz ora do meu pai, ora da minha mãe, atrás da porta trancada, a pedirem-me para entrar. Grito-lhes que não quero ninguém ao pé de mim, para me deixarem em paz. Não percebem que ter de lhes dizer isto, ainda me magoa mais. No entanto, não consigo evitar, e volto a gritar para me deixarem sozinho, enquanto me levanto da cama e dou com o punho uma pancada violenta na porta. Volto a ter um novo ataque de choro, tão forte quanto o último e sinto-me sem força nas pernas. Ponho-me de gatas no chão e observo as lágrimas a caírem no chão, diante dos meus olhos, enquanto tento respirar. Não percebo porque é que me tinha de acontecer isto. Não consigo parar de culpar Deus pelo que me está a fazer. Não consigo parar de culpar o meu corpo, por não ser capaz de ser “normal”, de ser saudável, como o das outras pessoas. Odeio não conseguir parar de chorar, o que ainda mais alimenta esta fúria que não consigo parar de sentir.


5º DIA

Acordei hoje de manhã com mais uma mensagem de um amigo da escola, a perguntar se estava tudo bem comigo. Respondi-lhe a despachar que estive estes dias com gripe, e que estava a melhorar, desligando o telemóvel em seguida.
Sinto-me estranho hoje. Olho para o meu quarto e sinto que ele não é meu. Não tenho qualquer tipo de sentimento afectivo que me faça lembrar de alguma recordação em especial. Sinto-me indiferente a tudo à minha volta. Caminho, como, bebo e respondo a perguntas que me colocam quase de forma mecanizada.
Volto para a minha cama e fico lá deitado.

8º DIA

Voltei à escola, pois os meus pais disseram-me que não podia desistir, que devia ir à luta. Adoro estas frases pré-feitas. Para não me enervar mais, faço o que eles me dizem.
Empurro a pesada porta de entrada e entro no interior da escola. Espero não encontrar nenhuma cara conhecida e acelero o passo, sem desviar o olhar do chão.
Quando me aproximo da sala onde vamos ter a aula, vejo como é óbvio imensas caras conhecidas, que se aproximam de mim e me abraçam, perguntando-me felizes da vida, como me sinto. Disfarço um sorriso, e respondo que estou bem. E que estou melhor da porcaria da gripe. Por dentro, choro. Choro em parte pela felicidade em ver umas caras que há tanto tempo não via, que tanto significam para mim, que tantas saudades sentia sem me aperceber. Talvez por essa razão, a outra parte de mim chora por saber que nunca mais as vou ver. Sinto-me tão pequeno naquele momento, tão frágil. Tenho consciência que não vou conseguir controlar mais o choro e que não tarda os meus olhos atraiçoarão o meu sorriso. Tenho de ser forte e manter a porcaria do sorriso.

9º DIA

Estou agora fechado numa sala de estudo com mais dois colegas da turma. Deixei de conseguir ter controlo no choro e agora não consigo parar de o fazer. Os meus dois amigos respeitam esses momentos, mas não sabem como me ajudar. Sentem-se perdidos, uma vez que não percebem o que se passa comigo. Não posso dizer-lhes que daqui a menos de três meses... Não, não quero que eles sofram. Amo-os como grandes amigos que são, tal como amo a minha família mais próxima. Para mim, o amor manifesta-se a vários níveis, como a nível familiar ou nível da amizade. É redutor considerá-lo só como parte integrante das relações amorosas. É muito mais que isso.
Tento acalmá-los dizendo para não se preocuparem, que está tudo bem, apesar de ter consciência que dizer isso é o mesmo que não dizer nada.

12º DIA

Hoje é domingo. Os meus avós vêm jantar cá em casa. Pedi aos meus pais para não lhes dizerem sobre a minha situação, pois temo por eles e não quero que eles sofram. Não merecem que sofram.

23º DIA

Hoje, durante a noite, voltei a ter outra crise de choro e de raiva. Ainda tenho as marcas das unhas na palma das mãos e na cara, em cada bochecha. Contínuo sem entender porque é que tenho de passar por isto. Afinal, que Deus é este que me põe a mim e ao outros a sofrer desta maneira. PORQUÊ É QUE TENHO DE PASSAR POR ISTO?
30º DIA

Faz hoje um mês e não consigo parar de sentir que foi tempo perdido. Perdi tempo demais a lamentar-me. Perdi tempo de mais a chorar, enquanto podia estar mais perto da família e dos amigos. Tenho tanta coisa para fazer e para aproveitar. Não me sinto melhor, mas sinto-me diferente, com outro ânimo. Decidi não deixar de ir à escola e de continuar a ter a minha vida dita normal como tenho feito até agora. Prefiro manter-me ocupado, pois assim consigo gerir melhor o meu tempo. Além disso, a escola já não é neste momento uma prioridade e há tanto na minha vida que posso apostar mais. Vou passar mais tempo com a família e amigos. Vou apreciar mais o mundo que temos à nossa volta. Vou deixar de me preocupar com coisas supérfluas. Quero abraçar uma árvore ou dar uma nota de dez euros aquele que cego que todos os dias vejo no metro. Quero viver um dia de cada vez. Um dia como se fosse o último.


48º DIA

Hoje no comboio, a caminho de casa, pus-me a observar as pessoas à minha volta. Pensei na quantidade de pessoas que deveriam estar a passar pela mesma situação que eu. Naquela carruagem deveria haver pelo menos uma que estivesse ou conhecesse alguém nessa situação. Não sei porque me fui lembrar disto, pois só me fez voltar à memória que o meu tempo é curto. Sinto vontade de chorar outra vez, mas tento controlar-me olhando o mar a banhar a costa. Perto de chegar à Parede, decido permanecer no comboio e sair em S. João do Estoril, para ir passear no paredão de Cascais.

52º DIA

Durante esta noite vomitei três vezes e tive perto da manhã um pico de febre. Desta forma, a minha mãe e eu achámos melhor ficar em casa e, portanto, não fui à escola.
Lembrei-me de escrever uma carta a cada pessoa significativa para mim, deixando-o em envelopes com o nome respectivo. Não deixei de transcrever o quanto a pessoa foi e é importante para mim. O quanto devia ter dito mais vezes “gosto muito de ti” ou “amo-te” quando me deixava vencer pelo embaraço, e acabava por não o dizer. Relembrei em cada carta os bons momentos que passei com essa pessoa, o quanto me diverti, o quanto me senti feliz e o quanto ela me ajudou na minha vida. Agradeci desta forma tudo o que fizeram por mim. Pedi desculpa se por alguma razão os magoei ou os fiz sofrer. Despedi-me relembrando que não queria choros ou tristezas. Pedi para relembrarem os bons momentos que passámos, as adversidades que ultrapassámos e o quanto isso fomentou essa relação. Á minha família acrescentei o modo como gostaria que a minha morte fosse celebrada. Pedi para que lutassem para que os meus órgãos fossem doados e que o meu corpo fosse cremado, numa cerimónia simples e rápida. Preferencialmente sem corpo exposto ou velório que, a meu ver, só prolongam o sofrimento. Gostava que deixassem as minha cinzas num canteiro com as flores que eu mais gosto: rosas vermelhas. Pedi também que o que restasse no meu quarto fosse doado a qualquer instituição de ajuda, não me importa qual.
Depois de escrever as cartas, decidi procurar fotografias em que essas pessoas aparecessem e juntei-as aos respectivos envelopes. Sei que a memória é a melhor arma para recordarmos uma pessoa, mas uma fotografia transmite-nos a segurança de que nunca a esqueceremos.
Tenho vindo a pensar muito neste últimos dias sobre se devo ou não dizer aos amigos mais próximos que irei morrer. Tentei colocar-me no lugar deles, e sei que dessa perspectiva preferia muito mais saber que um amigo meu iria morrer dentro de tantos dias do que não sabê-lo. Assim, podia aproveitar da melhor forma esses últimos momentos junto dessa pessoa. Decidi contar-lhes.

60º DIA

Hoje dormi bastante mal, porque estou muito assustado pelo facto de já só me restar um mês de vida. Tenho rezado bastantes vezes, ultimamente, o que de certa forma, me faz sentir mais calmo.
72º DIA

Estou muito triste por não ter mais tempo para viver. Falta-me viver tanta coisa que é impossível reduzir tudo a menos de um mês. Isto tudo faz-me chorar muito mais facilmente. Não há momento que os meus olhos não estejam húmidos.
Tenho me sentido mais cansado ultimamente, os episódios de febre e vómitos têm sido mais frequentes.

79º DIA

Hoje acordei no Hospital. Estava deitado e ao lado da minha cama estava a minha mãe, sentada a olhar para mim. Notei que ela tinha estado a chorar. Tentei olhar nos seus olhos vermelhos e inchados, e perguntei-lhe o que tinha acontecido, ouvindo a sua voz como se ela quase estivesse no outro lado do mundo. Ouvi qualquer coisa sobre desmaio, escola e ambulância, mas depressa voltei a perder os sentidos.

82º DIA

Hoje acordei com os meus avós ao lado da minha cama. Estou bastante feliz por vê-los, apesar de estar com o coração partido por vê-los tão abatidos. Não me sinto com força para chorar como antes, mas estou bastante triste por ver os outros mal. Não quero que sintam mal por eu estar assim. Não quero mesmo. Especialmente a minha família e os meus amigos mais chegados.
Os meus pais trocaram agora com os meus avós. Estou cansado, mas sentir a minha família ao pé dá-me força. Não entendo porquê, mas também não interessa. Sei que me faz sentir seguro e com menos medo. Preciso mesmo deles e agradeço-lhes por isso.

85º DIA

Gostei imenso de hoje ter amigos e colegas da escola a visitarem-me. Sei que eles estão a sofrer bastante e custa-me não poder fazer nada mais que sorrir e dizer, com esforço, que está tudo bem, com excepção do facto de no serviço não me darem chocolates. Não sei como ainda tenho cabeça para brincadeiras, mas pelo menos consegui um sorriso por parte deles.
86º DIA

Hoje sinto-me bastante bem. Melhor que na última semana. Não sinto tanto cansaço a falar, nem oiço as vozes à minha volta tão longe de mim. Apenas me sinto com sono. Vejo os meus pais à esquerda da minha cama. Ambos estão com os olhos, inchados e envoltos em lágrimas, mas forçam um sorriso. Digo para não terem medo, porque estou melhor. Consigo finalmente dizer o quanto os amo, mas depressa volto a adormecer. Acordei outra vez e não vejo ninguém ao meu lado. Sento-me na cama, com os pés suspensos, e reparo que as cortinas estão fechadas. Saio da cama para entender o que se passa, no preciso momento em que dois enfermeiros puxam as cortinas em direcção à minha cama. Num relance, vejo os meus pais encostados à parede, estão abraçados e a chorar. Á frente deles está o tal médico que há três meses nos deu a notícia, a tentar consolá-los. Não percebo o que se passa, se me sinto tão bem e tão leve. Tão seguro e tão feliz. Finalmente com calma e paz em espírito. Olho para trás de mim, na direcção dos enfermeiros e então percebo. Vejo o meu corpo inerte, em cima da cama, com os olhos fechados e finalmente com uma expressão serena.

sábado, dezembro 02, 2006



Foi o suficiente. Levantaste-te e abriste a janela. Tentaste saltar, mas segurei-te. Pediste-me que te largasse e não o fiz. Talvez seja por ti, como te disse, mas sei que não aguentaria o peso da culpa de te ver morrer, sabendo que o podia evitar. No entanto estás aqui ao meu lado, e eu continuo sem saber porque o fizeste. Respondes-me silenciosamente enquanto desvias o olhar para a dita janela.

Deixas cair uma lágrima. Partes-me o coração.

Vou buscar um lenço e limpo-te a cara. Atiro o lenço para o teu lado e não resisto a abraçar-te. Gosto de sentir esse teu calor, esse teu calor de vida. Não consegues evitar e choras no meu peito. Afago-te as costas e o cabelo – parece que te estás a acalmar.

Peço-te para não o voltares a fazer. Abraças-me com mais força.

Deito-te na cama e seguro-te a mão, esperando que adormeças. Dou-te um beijo na testa e sento-me numa cadeira, a teu lado. Adormeço também, sem te largar a mão.

terça-feira, novembro 21, 2006

Sozinho….

…Triste

Uma voz…

…Ouvir-me a mim mesmo

Nada mais que ilusão…

…mas foi bom acreditar…

… que exististe.

terça-feira, novembro 07, 2006

Choro púrpura num relâmpago sem fim


- Vem para ao pé de mim. Senta-te aqui ao meu lado. Lembraste da história que te contei?
- Lembro-me.
- Nada do que te contei acontece na realidade. É o mal das histórias de amor, das histórias de aventura, das histórias policiais. Só as histórias de drama é que são as mais verídicas. De uma forma ou de outra, reflectem sempre uma experiência vivida, uma dor realmente sentida.
- Mas há muitas histórias de romance que acontecem mesmo como são contadas. Talvez menos que as de drama, mas acontecem.
- Não tenhas tanto a certeza disso. Mas também, só o futuro é que dirá, e o que te espera, se é que realmente está à tua espera, mais tarde ou mais cedo irá acontecer.


Fechou o diário, sentindo a sua capa dura de couro, e pouso-o em cima da secretária de mogno antiga, ao lado da caneta de madeira, velha e gasta. Levantou-se, aproximou-se da janela e observou a rua à sua frente, iluminada por aquelas luzes tremeluzentes dos candeeiros. Destrancou o fecho e abriu a janela, fazendo chiar a pesada porta de madeira branca, já carcomida pelo tempo. Aproximou-se do corrimão, enferrujado e velho, e deixou-se ficar, de olhos fechados, enquanto sentia a chuva a cair sobre a sua cara, sobre o seu corpo, ensopando toda a sua roupa. De repente, por fracções de segundo, viu um clarão branco através das suas pálpebras, seguido de um som estridente de um trovão. Abriu os olhos. Não se tinha assustado. O sinal havia sido dado. Esticou os braços, para cada lado do seu corpo, e murmurou o que lhe haviam ensinado. Uma aura púrpura circundou-o. A chuva começou a cair com mais força e vários relâmpagos surgiam em intervalos cada vez mais curtos. Uma lágrima ameaçou cair, mas ele, com toda a sua força, tentou segurá-la – isso seria o fim. O fim de tudo. Ele não podia deixá-la cair. Entrelaçou as mãos uma na outra, ao nível do peito, e fechou os olhos. Murmurou o que faltava dizer para acabar com o serviço. O tom púrpura começou lentamente a mudar para tons violetas e arroxeados e mais uma lágrima tentava prepotentemente libertar-se. Ele não estava a aguentar muito mais e com toda a força que ainda guardava dentro de si, gritou. Gritou o mais alto que podia. Foi aí que aconteceu. A primeira lágrima havia se soltado das suas amarras e caiu. Acompanhando o seu movimento, diversos raios começaram a atingir o meio a seu redor e a destruição começara. Ele ajoelhou-se e, agarrado ao corrimão, deixou-se levar por aquele choro que há tanto tempo guardava dentro de si. Choro de saudades, choro de frustração, choro de desilusão. Todos os tipos de choro. Sentiu alguém atrás de si. Virou-se sobre si mesmo, com o coração sobressaltado. E viu! Lá estava a silhueta que ele tanto sentia falta de poder tocar, de ter a seu lado, de dormir a seu lado. Queria voltar ao passado, sentir a sua voz, a sua respiração enquanto o aconchegava para dormir, de lhe dizer um bom dia antes de tomar o pequeno-almoço. Mas a visão durou pouco tempo, pois desaparecera com a mesma velocidade com que aparecera. Os relâmpagos continuavam a surgir atrás de si à medida que chuva ia alagando tudo a seu redor. Tentando se acalmar, levantou-se e sentou-se em cima do corrimão que, com o seu peso, começara a balouçar enquanto gemia. Sem se preocupar com a estabilidade do velho corrimão, atirou-se para o chão iluminado por aquelas luzes amarelas. Jazendo no chão, uma mancha de sangue começou a circundar o seu corpo, já sem vida, já sem aura, já sem nada.

Acordou na manhã seguinte cheio de dores no pescoço e na base das suas costas. Meio estremunhado reparou que tinha adormecido em cima do diário. Ainda com o sono recente na sua cabeça, aproximou-se da janela e reparou que estava destrancada. Abriu-a com medo e aproximou-se do corrimão. A noite cobria a rua à sua frente e apenas se vislumbrava a calçada iluminada pela luz tremeluzente dos candeeiros. O céu estava coberto com nuvens, mas não chovia nem trovejava. Ouviu barulhos atrás de si e num sobressalto, virou-se e viu à sua frente um gato preto e branco, sentado, de olhos esverdeados, olhando-o fixamente…

- Sabes que uma das coisas que sempre me disseram foi para não acreditar em tudo o que dizes.
- É normal, vocês não querem acreditar no que não gostam de ouvir.
- És um pouco confuso.
- Todos somos.

sexta-feira, novembro 03, 2006


Somos tão pouco, valemos tão pouco…
A novidade aparece… gostamos de a ver…
Tentamos agradar-lhe… vemos que não conseguimos…
Tentamos mais uma vez… já repara em nós…
Repetimos e agradamos mais… um ano depois tudo acaba…
A simpatia desaparece… a ilusão desmancha-se…
Frustração por termos perdido tempo com ela…
E no final, não ganhamos nada, perdemos muito,
Perdemos tempo, perdemos sorrisos, perdemos lágrimas…
Perdemos tudo e ganhamos menos ainda.

domingo, setembro 10, 2006

Abrindo mais uma vez o velho baú, aqui posto dois poemas que fiz há dois anos, numa noite de insónias =)
O que dava

O que eu dava para te ter a meu lado
Para te poder tocar
Para te poder abraçar
Para te poder beijar
E sentir teus doces lábios a roçarem nos meus.

O que eu dava para te ter ao pé de mim
Para sentir a tua pele
Para sentir o ar quente da tua respiração
Para sentir as tuas mãos suaves
quando me acaricias o cabelo.

Mas sei que é impossível.
Sei que nunca te irei ter a meu lado
Para te poder abraçar ou sentir teus lábios a tocarem nos meus…
Apesar disso, vou continuar a pensar em ti
E em pensamento, amar-te
E no sofrimento desejar-te.

Miguel Neves
11.06.04
03.37h
Iludes-me…

Iludes-me com palavras simpáticas,
com gestos carinhosos e sorrisos sinceros.
Iludes-me com os teus olhos de pálida ternura
e com os teus segredos e confissões
Tentas mostrar a confiança que tens em mim,
Como a madrugada clara vem após a noite escura.

Mas isso são apenas puras ilusões
Na quais eu não consigo deixar de viver
Sem me poder segurar nelas
E esperar, esperançosamente, que se tornem verdade.
Dependo muito de ti
E sofro com isso, pois amar é sofrer
E eu não quero sofrer, mas também não quero deixar de te amar,
Mesmo que nunca sintas o mesmo que sinto por ti
Mesmo que as ilusões nunca se tornem realidade
Mesmo que não consiga aquilo que desejo
Mesmo que continue a sofrer
Mesmo que queira morrer
Sem a meu lado te ter
E nos teus braços poder adormecer,
Eternamente.

Miguel Neves
11.06.04
04.02h